segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Aquilo que você já sabe.

(Escrito em 13/07/09)


Você me convida para um café, um sorvete, cinema, gasômetro. Há por lá um estacionamento novo, mais seguro, que você só agora descobriu. Então poderíamos ir até lá, tomar um café que não seja nem tão caro porque você bem sabe quanto sou mão-de-vaca nem tão amargo porque nós bem sabemos como você só toma café para me acompanhar. E na despedida não seria necessário que você entrasse no carro com muita pressa, passasse o cinto de segurança, errasse, e então partisse com o carro mesmo assim e só quando ele já estivesse andando tentasse o cinto de novo e pudesse respirar com um pouco de alívio – mas não com todo o alívio –, e logo não seria necessário que eu ficasse ressentida dos carinhos que não trocamos porque você morreu de medo mesmo dentro do estacionamento que não lhe parecia suficientemente seguro. Agora, muitos meses depois, você descobriu um estacionamento seguro e o que me é favorito, então sabe adequadamente me convidar para um sorvete e fazer a ressalva sobre minhas extremidades geladas com a mesma explicação que um dia lhe dei tentando incutir-lhe um pouco de minha parca fisiologia-patologia. É assim que você também pode me convidar para o cinema e acertar no filme, porque já aprendeu a entender que sempre me apetecem tuas escolhas francesas, ainda que eu fosse gostar de filmes de outras nacionalidades também. Você sabe de tudo que me é idiossincrático e também do que me é comum, e é por isso que você deve saber que apesar de minha frieza que controlo com luvas e poupando palavras seus convites me tocam, porque é explícito como nunca foi que temos as mesmas vontades e gostamos dos mesmos programas e etc e etc e é claro que eu só poderia sentir saudades disso apesar dos seus defeitos, ou melhor, das suas características que me desagradam e que levaram tudo a ruir. O que acho estranho, apenas, é que depois de tanto tempo você ainda tenha esperanças contra minha teimosia e método. Você sabe que eu não aceitaria, mesmo que não entenda ao certo o por quê e fique com raiva por dizer que me baseio no passado e que um dia pode ser diferente. É verdade, não acredito na mudança, mas meu n amostral é gigantesco, e você sabe o quanto gosto de fundamentar-me em evidências. Mas talvez eu devesse falar a sua língua agora. Talvez eu devesse simplesmente dizer-lhe que sair com você agora é como olhar sua escova de dentes que ficou no armarinho por um descuido qualquer e lembrar de você escovando os dentes ao meu lado e logo em seguida saindo de perto de mim por não suportar como eu faço barulho. É como estar de frente para essa escova, lembrar disso e de tantas outras escovas que usamos pela casa, rindo ou reclamando, e de como eu era feliz com isso. Não quero lembrar disso porque me faz mal, me faz triste, e eu me baseio em evidências de um n gigantesco que certamente me levará a um p<0,05 , de que chafurdar no que sentimos é uma grande idiotice se também sentimos e dissemos outras coisas que impedem que tudo isso volte, então o correto, p<0,05 , é que nos baseemos na escolha racional que provou com um intervalo de confiança compatível e uma puta relevância clínica que acabou, está acabado, e não tem mais como voltar atrás.

2 comentários:

A.E disse...

Quando chegamos na parte da escova velha, é difícil não é? Hoje não tenho nenhum bom conselho, ou algum argumento apropriado , estou tentando limpar a poeira de baixo do tapete. É tanta, que estou usando a pazinha dos outros...
Quem sabe um dia possa te dizer mais... Enquanto isso, só aguardo, limpo, e observo.

André disse...

Já entrei várias vezes aqui mas tem sempre só aquilo que eu já sei. Abandonou o blog, prezada senhorita Rafaela?